Colunistas Mario Cereda Tecnologia

Você já tem o assistente dos sonhos, só precisa deixar ele trabalhar

Hoje eu quero fazer uma provocação e um trato com você. Vou apresentar uma ideia que soa absurda, eu sei. Mas, se você me acompanhar até o fim, prometo que ela vai te fazer pensar, no final, você decide se estou louco ou não.

Agora pense comigo: e se essa nossa briga de gato e rato pela privacidade for, na real, uma batalha perdida? E se a melhor jogada para sua vida fosse simplesmente parar de nadar contra a maré, desistir, e entregar tudo de bandeja para sua IA?

Sim, parece loucura. Mas meu objetivo é simples: fazer você analisar sua relação com a tecnologia por um ângulo que talvez nunca tenha considerado.

Tudo começa com aquele momento clássico que todo mundo já passou: “meu celular está me ouvindo”. Você está na cozinha conversando e reclamando da sua cafeteira que pifou. Minutos depois, você abre o Instagram e dá de cara com três anúncios de cafeteiras novas. Você nem pesquisou, você apenas falou perto do aparelho, e aí vem a negação: não é possível, é só coincidência.

A verdade desconfortável é que essa paranoia é quase uma distração. A batalha pela privacidade, para o usuário comum, já foi perdida. E não foi só para o microfone do seu celular; foi para os cliques, para o tempo que passamos olhando uma foto (o Instagram sabe que você parou 2.5 segundos a mais naquela foto de praia), para o GPS que deixamos ligado e para os 500 termos de serviço que aceitamos sem ler.

Nós já entregamos o “o quê”, o “onde” e o “quando”. Mas, ironicamente, bloqueamos as conexões que permitiriam à IA nos devolver um valor real sobre o “porquê” das nossas ações. Vivemos num paradoxo estranho: damos dados suficientes para sermos bombardeados por anúncios irrelevantes, mas não o suficiente para que a tecnologia nos ajude de forma verdadeiramente proativa.

E se mudássemos o pacto?

Já que nossa “guerra digital” está fadada ao fracasso (apagar cookies e usar aba anônima é como tentar esvaziar o oceano com um balde furado), por que não fazer o oposto? Por que não abraçar a transparência radical e irresponsável?

Imagine seu celular e sua IA de estimação sabendo absolutamente tudo sobre você. Não só seus passos e seu sono, mas também o saldo da sua conta bancária (e aquele gasto “extra” que você escondeu na fatura), o tom de voz que você usa nas reuniões (e o que você realmente acha do seu chefe), aquele seu sonho de largar tudo e abrir uma pousada na praia,  as experiências que você quer ter, como visitar a Nova Zelândia, a frustração de não conseguir acompanhar a sua série preferida. Tudo mesmo!

O benefício, claro, não seria um anúncio ligeiramente melhor de cafeteira.

Seria uma notificação dizendo: “Notei pelo seu tom de voz na videoconferência com o time que você está no seu limite hoje. Sugiro uma pausa de 10 minutos para respirar e tomar um café antes da sua próxima reunião. E, por favor, não abra o e-mail nesse meio tempo.”

Imagine isso acontecendo um dia antes: “O episódio final da sua série preferida é amanhã às 22h. Notei que sua reunião das 16h sempre atrasa seu relatório e sua saída. Sugiro antecipá-la para as 10h (já verifiquei, todos podem). Assim, você termina tudo e sai às 18h30, chegando em casa a tempo de ver a série com calma. Posso remarcar?”

Você está no supermercado, passando no corredor de massas e, de repente, um lembrete: “Hoje é quinta e amanhã você vai receber seus amigos em casa. Sugiro pegar aquele molho pronto que você gosta e o queijo ralado para fazer algo rápido. Esquece a lasanha complicada.”

Ou, de forma ainda mais poderosa: “Sua meta do ano é ser promovido a gerente. Analisando suas últimas 3 semanas, você gastou 40% do tempo em tarefas operacionais (relatórios X e Y) que não geram visibilidade para a diretoria. Para atingir seu objetivo, você precisa liderar o Projeto Alfa. Sugiro automatizar o relatório X com este fluxo que acabei de criar e delegar Y para o estagiário (já rascunhei o e-mail de instrução). Isso libera 6 horas na sua agenda esta semana para focar no Alfa. De nada.”

Para terminar, um exemplo de férias: “Sobre aquele seu sonho da Nova Zelândia: achei uma janela de 10 dias em março. O clima é ótimo, as passagens estão 30% mais baratas (dentro do seu orçamento) e sua agenda no trabalho está livre. Já montei um roteiro básico. Posso reservar?”

Nós desconfiamos dos nossos celulares como se fossem espiões. Mas e se, em vez disso, eles fossem o nosso Jarvis? Pense bem: o Jarvis só era tão útil para o Tony Stark porque tinha acesso a tudo, da saúde dele aos detalhes da armadura. É por isso que ele podia salvar o dia, e não só sugerir coisas óbvias. Para um assistente funcionar nesse nível, ele precisa saber da realidade completa e sem filtros.

A verdade é que a privacidade já é um preço que estamos pagando, mas estamos recebendo um serviço de péssima qualidade em troca (publicidade ruim). Já que o usuário comum não vai conseguir auditar linhas de código ou controlar totalmente seus dados, talvez valha mais a pena abraçar a tecnologia de vez, entregar a chave do “reino” e exigir um benefício real que transforme nossa produtividade e saúde em vez de apenas nosso feed de compras.

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